Passando Fome na Boracéia
Não me lembro direito em qual ano foi, mas sei que foi em um aniversário meu. Fomos, Davidão, Jé Louco, Léo Nariga e Eu, Carlinhos. Saímos de casa umas cinco da tarde com destino Boracéia, uma praia deserta de sampa. Chegamos no terminal Tietê onze e pouco da noite. Todos empolgados com o rolê. Algo começou a dar errado, e não era o nascimento do Jé, mas outra coisa e tenho certeza que era um aviso de Chico Xavier. Que zica, o ônibus que ia até a Balsa em Bertioga, terminava as 18:30hs. Perdemos! Não havia como voltar pra casa, pois o relógio marcava 00:40hs. Mas, como todo bom idiota, que se empolga com qualquer bosta véia, nem notamos que a realidade seria bem diferente do que queríamos.
Conversamos e chegamos a conclusão de que Hotel por ali sairia caro. Eu fui sem dinheiro e todos me imitaram, então... decidimos dormir na rodoviária. Mas pra pegar no sono, teríamos de tomar uns gorós. Foi um negócio louco trocar o money pra comprar comida e cachaça. Como estávamos cobertos com aqueles cobertores velhos, que só se usa pra acampar e mais nada, nem notamos que os vendedores, dentro da estação, achavam que éramos mendigos. Eu não me acho com jeito de mendigo, mas todo o resto da humanidade parecia estar achando. Trocamos ao comprar uns doces zoados de morango. Compramos umas três MM´s (Maria Mole, no plural, pois foram 3) e tentamos dormir. Os cobertores no chão e as malas como travesseiros, logo chamaram a atenção de um negócio que ali passava, seu nome era João. O cara fedia a pinga e suava mijo. Ficou em silêncio e depois riu. Puts, o cara virou um monstro do pântano que engoliu pimenta de enxofre e caldo de sovaco peludo depois do futebol com amigos do bar do Pedrão. O exu não contava com seus dentes pra nada. Era um vazio enorme na boca do rapaz. Lá dentro devia ter mosca, minhoca, larva e mais um monte de verme, mas não esses vermes que são nossos políticos e sim vermes mais limpos. Na verdade, acho que o cara era um cadáver do cadáver que mordeu um pedaço de vômito congelado. Muito feio. Mais feio que... deixa eu ver... mais feio que... ahhhhhh, mas feio que eu pelado, pronto! Mais feio que bater na mãe por causa de marmita.
O monstro falou que ia pra Bahia e a cada fala, babava veneno de rato em nós. No fim, deu um gole em nossa bebida e se foi. Bahia... até parece, aquele alienígena ia pra Mercúrio, isso sim.
Continuamos a conversar e alguém olhou no copo que o "Toca fita de brasília" havia tomado a pinga. Meu, tinha xulé lá dentro. Secreção de machucado vencido. Credo. Claro, o David tinha que apostar quem bebia aquilo. Bebemos e até hoje temos crista de galo e sarampo anal.
Logo um segurança nos expulsou dali e fomos dormir nos bancos. Foi ruim, mas dormimos.
Quando deu a hora de o buso chegar, simplesmente, sem mentira nenhuma... Parece até estranho e fora do comum pros dias de hoje uma coisa dessas, mas quando deu a hora do buso que nos levaria à Boraceia, ele sem mais nem menos............ sem que nos fosse avisado com antecedência e louvor a qual desejamos, o buso.... o buso..... o busão chegou! Que bom, neh?
No buso, me lembro direitinho de o David me mostrar uma revista de Surf que nas últimas páginas havia uma estória em quadrinhos. Dois amigos foram pra praia e passaram bem os primeiros dias. Depois eles passaram fome e comeram grama com areia. O retardado do David ainda me disse que aquilo aconteceria com a gente.
Chegamos lá e combinamos com o dono do camping que por lá ficaríamos uns três dias. Acertamos de pagar no final da estadia.
Compramos muita bebida e alguns pacotes de macarrão. Dois dias depois já não existia macarrão. E pra fazer esses que duraram pouco, tivemos que pedir uma panela, algumas colheres e pratos, na casa do dono do camping, o tal de formiga.
Pra cozinhar o macarrão, coloquei uma panela no chão, em cima de um buraco que segurava a latinha de cerveja usada cortada ao meio, que agora continha álcool. Era nosso fogão. O macarrão era um grude gostoso até. Pra tomar banho, só de chuveiro gelado. Esquecemos de comprar pasta de dente e o sabonete estava no fim.
Ah, pra deixar bem claro o veneno; estávamos em quatro jagunços dentro da mesma barraca que suportava 4 mesmo. Mas, todos estávamos com mochilas, três pranchas de surf, cobertor, toalha de banho e de rosto; vara de pescar, vela preta, boné, mouse, livro, cadáver, ração, rádio, antena parabólica, trilho de trem, lua, geladeira e tudo mais. Era um aperto só. Só havia a gente no camping e ainda nos roubaram uma bermuda, ou duas, não me lembro. Quem roubou? Lógico, acharam que foi eu, pois era o único negrinho ali. Deram queixa na policia e já se completam treze anos que estou aqui nessa penitenciária.
Quando sentimos fome e não havia o que comer, o pessoal muito gente fina que conhecemos lá naquela vila, nos presentearam com salsichas ao molho de tomate. Foi uma só e acabou tudo. Deu pra disfarçar. Logo a fome bateu novamente.
Era o terceiro dia lá e nada de rango. Meu estômago gritava de solidão. O Jé Louco conversava com a barriga dele e de tanta fome pirou o bichinho. Achou que estava grávido, pois ouvia barulho na barriga e no fim era mesmo uma filhinha. Nasceu lá mesmo, no banheiro do camping. O nome da criança: Solitária! É isso mesmo, o Jé deu a luz a uma lombriga enorme!
Só almoçamos alguns pedaços de pão doce duro, porém deliciosos que nossas novas amigas nos deram. Só! Quando anoiteceu a fome estava em nossos rostos. Pra ficar na barraca era impossível, pois o bafo de todos era o cu do bode. Pra conversar, era preciso tapar a boca com a camisa e coar o cheiro de cachaça, residuos de nada e mais nada com nada, pois nada comemos, neh.
A noite estava linda e eu junto com minha companheira ficamos flertando ao olharmos as estrelas e o mar que jogava sua brisa pra eu jantar. Falei que não queria mais ela e que ela não prestava. Ela ficou em silêncio alguns segundos, mas logo resmungou. Me senti ruim de tê-la comigo e por isso queria que ela fosse embora. Ela ensistiu e ficou falando e falando um monte de coisa que não entendi. O nome dela? Fome!
O David me viu falar sozinho e entrou na conversa. Estávamos em uma sala de bate papo. O David e seu estômago, Eu e o meu que era escandaloso.
Olhamos um pra cara do outro e juntos olhamos a areia e a grama. Juro, deu vontade, mas ainda havia uma esperança e como a fome era tanta, esperamos a esperança morrer, pois é a última a fazer isso e assim poderíamos assar a fome e come-la na brasa. Isso, comer a fome. Não achamos um jeito, mas o acaso mostrou-nos uma luz. Algumas explosões lá bem longe e alguma coisa me disse que era bom. Como era época de eleição, logo julgamos que seria um show de algum político. Na hora decidimos ir e todos concordaram. Os fogos explodiam lá muito longe, mas, como não havia o que fazer, foda-se... fomos!
Andamos muito! uns três mil quilômetros de praia. Andamos tanto que no fim estávamos barbados, com filhos, netos e algumas bisnetas grávidas.
Foi então que vimos almas vivas e o comício. O povo humilde deixava bem claro em suas vestimentas que aquilo era uma mega-festa. Olharam para nós como se fossemos mendigos.
A fome gritava mais alto que o candidato em cima do palanque. Mesmo assim não deixei de notar a gritaria do candidato e reclamar dos seus berros e que tinha que perder por achar que o povo era surdo. Enquanto eu falava a voz do corno entrava um pouco lenta em minha mente. Do nada escutamos ele dizer que havim 200Kg de carne de grátis pra todo povo. Minhas palavras que estavam saindo da boca foram atropeladas por uma pergunta que fiz à mulher que estava ao lado: -De graça? Carne? - A mulher confirmou e nós comemoramos ajoelhados no chão. Todos nos olhavam. Até o político ficou olhando bestificado com tamanha comemoração. Nada entenderam. Quase votei nele.
Corremos pra fila e toda carne com pão que pegávamos ia direto pro bolso e pra boca. Era uma garantia de almoço. Comi muito... comi espeto, grelha, carvão e alguns copos de plástico. Eu tava com fome.
Fediamos muito. Algumas meninas pediram pra nos conhecer e quando vieram falar com a gente... puts... o fedo na boca e as carnes no bolso... Todos tampamos a boca com a camisa ou com a mão, pra disfarçar o cheiro de xulé com CC. Elas riram muito com nossas explicações sobre tais atitudes.
Ligamos na mesma noite pra sampa, pois o dinheiro havia acabado e o cartão do Léo e do Jé Louco não cantou na maquininha. Tentamos arrumar, mas ninguém emprestou, exceto o Gardenal. Mentimos pro Gardenal dizendo que tava da hora a praia, várias gatas e tal e o bichinho ficou doido, arrumou dinheiro e decidiu descer já na manhã seguinte, com dinheiro no bolso. Pronto, nossa salvação veio da fármacia; Gardenal!!!!!!
A fome bateu de manhã e fomos esperar o Gardenal na estrada. Ele chegou e quando nos viu, achou que fossemos aborigenes passa-fome. Pedimos 50 centavos e ele deu. Foi uma alegria só. Soltamos fogos, alugamos um navio com muita mulher gostosa e burra. Eu me senti em um clip de black. Ops, isso foi um sonho. Então.., compramos uma cocada e dividimos em quatro e a alegria tomava conta até das nossas almas. Uma cocada... pode?
Deviamos o Camping do formiga, o bar do Seu Joca e alguns outros lugares como o FMI, FBI, CBF, OMO, OVO e tudo qualquer sigla. Fizemos as contas e prometemos comprar comida simples, óleo, sal, macarrão, arroz, pasta de dente, papel higienico, etc etc... O resto do dinheiro, pagariamos o camping e as pessoas que nos ajudaram. Voltamos e a compra foi: Vodka, Limão, Cerveja, Açucar, Coca, Vinho, Pinga, Heroína, Cocaína, Cafeina, Ecxtasy, Maconha, Pedra, LSD, FMI, FBI, CBF... Enfim, tudo errado. Não pagamos o camping e nem nada. Só compramos pinga.
Bebemos o dia todo e ainda sobrou muito. Quando caiu a noite, todo mundo tava chapado. Era a passagem do dia 23 para 24 de setembro, o dia do meu niver. Bebi pouco, mas esse pouco me transformou em outra pessoa e essa sim, essa pessoa bebe pra caralho. Fiquei como o Bispo Macedo gosta. Fizemos uma seção do descarrego com os 318 empresários e fui liberto. Hoje eu tenho saúde, sou bem casado, amo minha esposa gostos... ops, meus filhos e o melhor de tudo... tenho minha vida financeira resolvida. Posso perder meus filhos, minha saúde, minha esposa, mas o Bispo Macedo me explicou que o dinheiro me dará tudo de volta.
Mas voltando ao assunto; só não havia o que comer, até que um trator roubou a cena noturna na praia deserta e ficamos olhando. Logo um monte de pescador apareceu em caminhonetes. Eu tava chapado e fui lá perguntar o que era que eles faziam jogando corda na água do mar. Dãããããã, que bocó, era pesca, neh. Pedi pra ajudar e assim ganhar uns peixes. O Gardena, o David e eu fomos ajudar. Desisti tão rápido que nem comecei. O David e o Gardena conseguiram trazer alguns peixes pra gente. Xereu, Tainha e Siri, que foi assado na casca e não cozinhado, como é o certo. Tadinho, o bichinho corria na grelha feito siri correndo na grelha mesmo.
O Léo não comia peixe, pois não gostava, mas aquele dia comeu que foi uma beleza. Lambeu até o carvão que estava melado com óleo do peixe. Foi uma festa e tanto. Supimpa. Bacana. Legal.
O Gardenal se deu conta no outro dia de que estava passando fome e que nem mulher havia ali. Ficou louco, ou melhor, voltou ao estado natural.
Sobrou pinga e mais nada. A realidade era dura. Nenhum tostão furado e comida era brisa. A fome era enorme. A barriga roncava como o Tenor Plácido Domingo na ópera de Passan Fomè in L´la Plaiá!
Fiquei tão magro que não possuía nem frente nem trás. Eu era um verbo! Um singular. Eu era uma imaginação real de mentira que existia sem ser nada. Entendeu? Não? Nem eu! Mas é sério, perdi uns 4 kilos e acabei ficando com 31. Não almoçava e pinga era mato. Fedia feito peido pós-repolho com miojo de ovo, se é qui existe. Ah, falar nisso, o dono do miojo morreu! Num sei porque eu disse isso, mas achei que o Chico Xavier sabe.
O Léo ficou só as narinas nada modestas. O Jé ficou só o Louco. O Gardenal já é um bicho. O David ficou... ãããhhhh...do mesmo jeito, continuou sendo ele mesmo. Tadinho, ele sofreu mais.
Fomos proibidos de entrar na água pelo IBAMA, pois nosso bafo estava afastando as pingüins lá do Polo Norte.
O Jé estava com tanto bafo que bebeu água e ela evaporou ao tocar a língua.
